
sábado, outubro 25, 2008
# ÁGUA #





Tocar-te! Essa experiência sensível que percorre e arrepia o corpo leva-me à imersão total. Deleito-me em ti, crio-me nessas gotas mágicas que me envolvem, deixo-me estar. Sentir-te é como boiar no céu ou num qualquer ventre esquecido e agora recordado. Água! Espelho de mim mesma, imagem subtil que me refrescas e me agitas. Não quero subir. Teimo em ficar. Agora apenas vejo a minha imagem reflectida, agora...por dentro de mim, apenas vejo essa imagem, imagem de mim e do mundo que é fora. Agora que a vejo daqui, teimo em ficar. E fico. Pinta outro quadro, eu apoderei-me deste, é meu!
Rita Fernandes
sexta-feira, outubro 17, 2008
quinta-feira, outubro 02, 2008
# PERSONA #










“Persona é o conhecimento, um terrível conhecimento sobre a nossa solidão,a nossa singularidade.A nossa capacidade de tocar um ao outro.É uma confissão dos nossos medos.Do homem, do fracasso, da morte.Persona é um drama sobre p desespero, o silêncio.Um terror indescritível da vida em todos os aspectos.É um drama sobre a sensibilidade da pele, dos rostos e das palavras não entendidas.Persona é uma ilusão estilhaçada.Uma vitória sobre o silêncio.”
Texto do trailer de Persona
As Boas Raparigas...
PERSONA
INGMAR BERGMAN
Encenação de João Pedro Vaz
24 Setembro a 02 Novembro
ESTÚDIO ZERO, Rua do Heroismo
Texto do trailer de Persona
As Boas Raparigas...
PERSONA
INGMAR BERGMAN
Encenação de João Pedro Vaz
24 Setembro a 02 Novembro
ESTÚDIO ZERO, Rua do Heroismo
segunda-feira, setembro 08, 2008
# A VIDA #

“Quando se sofreu muito na vida, cada nova dor é simultaneamente insuportável e insignificante. A minha vida é como um memento mori da morte da arte europeia: há sempre uma caveira arreganhada ao meu lado para me lembrar da insensatez da ambição humana.Faço troça dessa caveira . Olho para ela e digo:”Escolheste o tipo errado.Podes não acreditar na vida , mas eu não acredito na morte.Vai-te embora!”A caveira solta uma casquinada e aproxima-se mais, mas isso não me surpreende.A razão porque a morte se mantém tão perto da vida não é a necessidade biológica - é a inveja. A vida é tão bela que a morte se apaixonou por ela , um amor ciumento, possessivo, que agarra aquilo que pode.Mas a vida salta agilmente por cima da morte, perdendo apenas uma ou duas coisas sem importância, e o desânimo é a sombra passageira de uma nuvem.”
Yann Martel
A Vida de Pi
Yann Martel
A Vida de Pi
domingo, agosto 31, 2008
sábado, agosto 30, 2008
quinta-feira, agosto 14, 2008
# Série 7# Procura-se
Dois pianos abrigam-se mutuamente da ameaça de chuva. O da esquerda, desafinado, está virado a oeste, de onde chegam sempre as nuvens carregadas e o vento húmido do Atlântico, depois de soprar com vigor sobre os carneiros brancos nos cumes azuis das vagas. O da direita, intacto, virado a este, onde o ar polar do Ártico traz consigo as últimas neves, gelo e bolas gigantes de granizo como os novelos de lã dos carneiros tosquiados. Costas com costas, as pretas e as brancas dos pianos não se vislumbram, nem sequer se ouvem, mesmo tocando mudamente para si dentro da protecção de madeira que as cobre. São dois pianos parados, assim, como se fosse normal estarem em movimento, o som a voar dos pedais à cauda; assim, parados como é normal os pianos pararem quando todos deixam a sala de concertos e o Steinway fica ali, quieto e mudo, orgulhosamente preto e lustroso, como um bom par de sapatos de homem, a fazer olhinhos às brancas. Os pianos não se conhecem mas fazem-se companhia. Ali, no meio daquela estrada barulhenta de ambulâncias e carros de corrida dos novos-ricos dos subúrbios, é importante que os pianos permaneçam juntos na eventualidade de um humano chegar, levantar a tampa e, no meio daquela estrada poluída de veículos pesados e prioritários a caminho do hospital e do jantar quente na mesa, a dois passos da lavandaria que me roubou o casaco de presilhas, tocar as brancas e as pretas em simultâneo. Repito, em simultâneo, e, assim, deixar o som sair.














Todos os pianos são mudos até serem tocados.
Como um corpo, o da direita sente as cordas vibrarem de horror quando o humano toca as teclas claro-escuro do piano do Oeste. Diria antes, faroeste porque aquela harmonia completamente desafinada soava a um acordeão irlandês tocado por um músico no Texas a tomar uísque escocês. Arrgh, arde na garganta! O próprio piano do Oeste compreende o desespero do outro, porque são as suas cordas, porra, que estão a ser puxadas até à exaustão por estes dedos humanos sem ouvido para a música. Pára imediatamente!, gritam as cordas do Oeste, sopradas com os ventos atlânticos, quando os dedos tocam a escala superior. O da direita suspira de alívio, mas por pouco tempo, porque sente os passos, e atrás dos passos vêm as mãos, os dedos, as unhas do humano tocarem as suas teclas intactas. O do Este ainda sente o frio da geada desta manhã, mas as mãos do homem estão quentes e ele treme de desgosto ao sentir aquela mão papuda, redonda, pesada, grossa e peluda a tocar as suas delicadas brancas e pretas. Os dois pianos, assim violados pela mão humana, fecham os olhos lentamente na esperança do resgate do momento anterior, quando não havia homens, e quando estavam simplesmente (já ninguém usa mais o verbo estar; estar estando), à espera da chuva, em frente a uma garagem fechada, no meio do nada. Tenho testemunhas.
Estes dois pianos não sentem falta do humano que ali os deixou, abandonados à sorte dos carros do lixo da Câmara, dos bombeiros ou da caridade. Não sabem para onde irão, provavelmente não sabem de onde vêm, não sabem voltar, não são como os gatos que sempre encontram o seu caminho de volta.
DESAPARECERAM
Dois pianos, de madeira castanha, um pouco velhos mas muito queridos.
Costumavam estar em frente àquela garagem. Agradece-se a alguém que os veja, por favor contacte
Verónica
Como um corpo, o da direita sente as cordas vibrarem de horror quando o humano toca as teclas claro-escuro do piano do Oeste. Diria antes, faroeste porque aquela harmonia completamente desafinada soava a um acordeão irlandês tocado por um músico no Texas a tomar uísque escocês. Arrgh, arde na garganta! O próprio piano do Oeste compreende o desespero do outro, porque são as suas cordas, porra, que estão a ser puxadas até à exaustão por estes dedos humanos sem ouvido para a música. Pára imediatamente!, gritam as cordas do Oeste, sopradas com os ventos atlânticos, quando os dedos tocam a escala superior. O da direita suspira de alívio, mas por pouco tempo, porque sente os passos, e atrás dos passos vêm as mãos, os dedos, as unhas do humano tocarem as suas teclas intactas. O do Este ainda sente o frio da geada desta manhã, mas as mãos do homem estão quentes e ele treme de desgosto ao sentir aquela mão papuda, redonda, pesada, grossa e peluda a tocar as suas delicadas brancas e pretas. Os dois pianos, assim violados pela mão humana, fecham os olhos lentamente na esperança do resgate do momento anterior, quando não havia homens, e quando estavam simplesmente (já ninguém usa mais o verbo estar; estar estando), à espera da chuva, em frente a uma garagem fechada, no meio do nada. Tenho testemunhas.
Estes dois pianos não sentem falta do humano que ali os deixou, abandonados à sorte dos carros do lixo da Câmara, dos bombeiros ou da caridade. Não sabem para onde irão, provavelmente não sabem de onde vêm, não sabem voltar, não são como os gatos que sempre encontram o seu caminho de volta.
DESAPARECERAM
Dois pianos, de madeira castanha, um pouco velhos mas muito queridos.
Costumavam estar em frente àquela garagem. Agradece-se a alguém que os veja, por favor contacte
Verónica
Maria David
Liverpool, 24 de Abril, 2008
Liverpool, 24 de Abril, 2008
domingo, agosto 03, 2008
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