sexta-feira, maio 08, 2009

# Crónica de um Naufrágio Anunciado II #






E quando o Inverno termina e a luz do entardecer desenha sombras profundas na areia? Tu sabes: a praia está semeada de sapatos abandonados que são como corpos cansados pela sofreguidão da cópula; os areais estão ainda desertos e esses melancólicos sapatos (desirmanados, solteiros, solitários) são as testemunhas que restam dos dias em que os casais se aproximam demais da rebentação das ondas, do lume que há no meio da tempestade, e abandonam as roupas ao temporal e o calçado à turbulência das vagas. São náufragos, sim, esses sapatos, mas não foram vítimas do mar – são apenas a delicada razão pela qual trazes sempre um pé descalço quando chega o Verão.
Manuel Jorge Marmelo

quinta-feira, maio 07, 2009

# Mais braço, menos braço - 8 #

Ele disse
- Vai-te matar
E eu disse
- Vai tu
E não voltei a pensar nisso.
Hoje fui ao e-mail, vi as fotografias da miúda que vai substituir a Valéria no filme e pensei: isto está mesmo a acontecer. As ameaças não são a ameaça. A ameaça é ela, e a vida continua.
Portanto, se ele me voltar a dizer
- Vai-te matar
Agora eu digo
- Está bem. Sempre andei com cianeto no bilhete de identidade.

M.A.




























sábado, maio 02, 2009

sexta-feira, maio 01, 2009

quinta-feira, abril 23, 2009

# Mais braço, menos braço - 6 #

Ontem vi um filme em que um homem dizia que para ir ao Pólo Norte bastava-lhe pensar nisso. Eu e a Valéria éramos assim. Quando queríamos estar uma com a outra pensávamos nisso. Tenho andado a tentar, mas agora não funciona. Acho que é preciso duas cabeças para haver telepatia e a tua, da última vez que a vi, estava a dormir de olhos abertos em cima do tronco de uma árvore. A minha também andado a dormir desde que abri o envelope. Quando era pequena sabia que nunca se aceita nada de um estranho. Devia ter mandado o envelope para trás. Assim na minha cabeça a tua cabeça continuava viva, e eu já podia voltar a ir ao Pólo Norte.
M.A.









# ANZOL #


Dia 23 e 24 de Abril TEATRO  VILA REAL  22.00 horas

quinta-feira, abril 16, 2009

# Mais braço, menos braço - 5 #

A dor é insuportável. Junto-me ao meu anjo.




























quarta-feira, abril 15, 2009

# EXPOSIÇÃO NA FLUP #




A A3S - Associação para o Empreendedorismo Social e a Sustentabilidade do Terceiro Sector e o Instituto de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP), promovem, durante o mês de Abril, a terceira edição da iniciativa "O Mês do Terceiro Sector". Dirigido a profissionais e voluntários de organizações da economia social / terceiro sector, bem como a estudantes, licenciados, investigadores, entre outros interessados, vai realizar-se nos dias 17, 23 e 27 de Abril um conjunto de sessões de reflexão e debate que procuram antecipar o Ano Europeu do Combate à Pobreza e Exclusão Social em 2010 e promover a reflexão sobre a Pobreza e a Exclusão Social perspectivadas na sua relação com o Terceiro Sector, tendo em conta diferentes esferas de abordagem: a Economia Solidária, os Direitos Humanos e a Educação. Paralelamente às sessões, inaugura-se no dia 17 de Abril às 20h30, na biblioteca da FLUP, uma exposição fotográfica de Paulo Pimenta intitulada "Enquanto Estamos Acordados". A exposição poderá ser vista entre as 08.30 até 20.30 de Segunda-Feira a Sexta-feira e Sábado das 09.00 até 13h na BIBLIOTECA CENTRAL FACULDADE LETRAS UNIVERSIDADE DO PORTO ATÉ AO DIA 15 MAIO

# PERCURSO #















“Quando morrer, atira as minhas cinzas sobre o Bósforo”, costumavas dizer nas noites em que a fome dos corpos ia adiando o sono até a primeira luz romper a persiana branca do quarto. E rias, com aquele riso claro que te acontecia sempre que ficávamos assim, com tempo para sentir o tempo passar-nos pelo corpo: quente/frio, claro/escuro.
Os dois esquecidos dos outros na geografia dos lugares onde nos habituamos a vagabundear o ócio dos sábados: a circunavegação de bicicleta, a árvore onde marcámos a giz branco um hieróglifo que só nós conseguíamos decifrar, os ziguezagues pela neve onde desenhávamos os mapa-múndis que, por vezes, nos acompanhavam no revolutear dos lençóis nas noites em que a fome dos corpos ia adiando o sono até a primeira luz romper a persiana branca do quarto. “Quando morrer, atira as minhas cinzas sobre o Bósforo”, recordo-me de te ouvir rir.




















































Mas isso era numa altura em que nos imaginávamos envelhecidos e juntos e gostávamos de brincar com a ideia de nós, a uma lareira de inverno, a tricotar exasperações e ternuras seculares: quente/frio, claro/escuro.
Hoje, meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada, a não ser este papel rasgado com o poema do Eugénio que copiaste à mão de um livro que não chegamos a comprar e que depois entoámos tantas vezes porque nos sentíamos, de facto, “no tempo dos segredos” imunes a esperas inúteis e como se todas as coisas fossem nossas, gritado assim, marcando cada sílaba co-mo-se-to-das-as-coi-sas-fo-ssem-no-ssas.
O que ficou desses dias foi a minha visão embotada dos lugares de antigamente. E eu que pensava ter esgotado o rio das lágrimas dou por mim a vagabundear o ócio dos sábados que já não é ócio é desespero que dói como sal em ferida aberta porque tu não estás e não te deste sequer ao trabalho de deixar cinzas que pudesse atirar ao Bósforo e a mim com elas porque o que me resta é este cenário de luzes que não são luzes mas sugestões alienígenas num jardim com árvores que não têm folhas mas a sugestão de algodão e neve que já não é neve mas resquícios avaros do nosso antigo delírio branco. Voltamos ao princípio?
Natália Faria