sexta-feira, setembro 25, 2009

# Porto Positivo/Negativo # Dresden?Coventry? Bagdad?

Dresden? Coventry? Bagdad? Não, nem por isso, isto é tão simplesmente no Porto! Tão desoladoramente no Porto, e dói tanto mais quanto os advérbios utilizados são redutores para qualificar a vergonha que se sente de ver e imaginar a escalada dos turistas ao mirante ex-libris que ladeia a Praça. No plúmbeo derramado, sobrevivem algumas clarabóias de esperança a implorar a ressuscitação para além de uma episódica e oportunista promessa eleitoral. Até lá, o resultado de um bombardeamento ficará tracejado nas mentes e os escombros da insensibilidade moldarão a ferida urbana. Oh, quanto ansiamos por chamar "Fénix Renascida" à Praça de Lisboa! De Lisboa, só "de", se fosse "em" talvez a questão fosse uma prioridade nacional. Enquanto esperamos, porque não uma Burka gigante a cobrir toda a extensão do espaço?

João Fernando Arezes


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# CEGUEIRA #

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“ A cegueira é o destino de quem se deixa tomar de assalto pela paixão:deixamos de ver quem amamos. Em vez disso , o apaixonado fita o abismo de si mesmo.
-Mulheres são como as ilhas: sempre longe,mas ofuscando todo o mar em redor.”
MIA COUTO
JESUSALÉM

sexta-feira, setembro 11, 2009

# Porto Positivo/Negativo # Caos

CAOS na versão urbana... o Porto só de alguns, o Porto só para alguns! Carro na cidade é: tesão da soberba, posse, território ocupado, colonato temporário de volumetria automóvel, extensão do falo ou ignorância na consciência dos limites que vão para além da liberdade pessoal, antítese do conceito de cidadania. De cada vez que um automóvel invade o espaço público da urbe, sem que haja necessidade, a esse mesmo acto corresponde uma enunciação pictórica equivalente a uma “Natureza em Coma”, pintada com o pés...no pedal! Transporte público ‘para esses alguns’ é sinónimo de estigma, despromoção social, estar acondicionado com outros, sem ar condicionado, condicionado pelo ar dos outros...sentir vergonha do estatuto de passageiro, daquilo que para eles constitui uma forma inferior de mobilidade. Se questionarmos um brasileiro sobre o que é para ele o CAOS resultante do excesso de automóveis numa cidade, dirá exactamente com as mesmas letras que constituem a palavra: “É um SACO!”, nem menos.

João Fernando Arezes

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quarta-feira, setembro 09, 2009

# DEIXAS SAUDADES#

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Um abraço Grande meu AMIGO.

segunda-feira, setembro 07, 2009

# Ensaio II #

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# SÓ QUE ERA ...#

Só que era mais fácil matar-se alguém
a quem se ama do que matar-se a si próprio
Graham Greene , O Ministério do Medo


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terça-feira, agosto 25, 2009

# Série 9 # perdidos

Somos a geração perdida. “Nossos sonhos foram medicados. Não pertencemos a lugar nenhum”. Lugar nenhum nos pertence. Vivemos, como nómadas, vidas em sacos de plástico, de papel, em caixotes, em cartões de cartolina, desdobráveis, desarticuláveis, descartáveis. Sabemos, por experiência, como enfiar vidas inteiras dentro dos limites estreitos de vinte, vinte, vinte caixas de garrafas de vinho – as mais resistentes – roubadas no Continente. Falamos todas a línguas do mundo e, contudo, estamos perdidos nos meandros da rede – suburbanáveis. Somos de todas as profissões, somos de todas as cores, e de todos os bairros. Somos, simplesmente, somos, uma vez que já não estamos, e nem sequer sabemos. Para nós, já não há verbos, nomes, nem adjectivos, a gramática é uma arma de coacção contra a liberdade da palavra. Quisemos ir para longe, aqui não se podia, aqui não se vivia, aqui não se ia a lugar nenhum. Agora, lugar nenhum vem até nós. Fomos esquecidos, olvidados, ofuscados, obliterados, apagados da base de dados. Fomos hackers, graffers, taggers, squatters, gangsters, globetrotters, pobres rebeldes pobres. Agora, talvez só nos reste o rendimento mínimo, múltiplo divisor comum, noves fora, nada, agora talvez só nos reste um nove. Nove caixas de cartão, vazias.

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Para falar verdade, talvez estejamos todos mortos.
E não pagámos nós as contas, a renda, o telefone, a contribuição autárquica, o selo do carro e a tv cabo? E não pagámos nós as propinas do bacharel, da licenciatura, do mestrado, do curso de inglês, da ginástica e da pós-graduação em gestão, talvez, para estarmos aqui na fila do centro de (des)emprego? Pagamos agora por tudo o que não temos, chicote de culpa no cachaço. Sim, migramos de ponte em ponte até conseguirmos passar para o outro lado, para os vadios campos de esperança por colher. Como manda a tradição, seriam verdes, de um verde maduro, pronto a ser ceifado. Juntos formaríamos uma colecta para angariar fundos para, juntos, colher os frutos do verde espigo. Mas no estio, o verde estava já queimado pelo fogo posto da insolvência. O campo ulula agora, como um fado vadio, contra o dourado dos seus cereais – amarelecidos pela queimada violenta dos últimos verões, casas, famílias, triciclos despedaçados pelas ingovernáveis labaredas do nosso descontentamento. E ainda não tínhamos chegado ao Inverno.


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No Outono, cobertores às riscas saíam do armário – a caixa vazia, à direita – prontos a aquecer os pés frios de Novembro, porque o gás já fora cortado: mais uma conta no banco abaixo de zero. O juro a pingar, a pingar, todos os meses, ia jurar que era a chuva, um ruído ensurdecedor. Primeiro, pôs-se um balde, mas como ainda não tinha água suficiente para fazer pim, fazia poc-poc-poc contra o plástico. Depois, considerou-se que o cartão era mais resistente. Talvez até mais quente. Mas como não era de crédito, ficou empapado. Lentamente a água desfez o cartão. Apodrecemos todos, juntos, debaixo da ponte.

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No Inverno, já não estávamos descontentes. Talvez ainda estivéssemos com a esperança (verde) na Primavera, de olhos postos no outro lado da ponte, mas muitos meses tínhamos ainda pela frente, muitas noites de granizo e ventania, muitos cartões por dobrar, muitas moradas por habitar, muitas laranjas prontas a desistir de um futuro de sumo no algarvio chão de Fevereiro. No Inverno, todos os dias eram iguais a ontem, sonhava-se com os morangos de Maio (maduro), pequenos e doces, sumarentos como as laranjas que não comemos. Sonhava-se com as amoras (en)colhidas, uma a uma, pelo bosque – tanta amora perdida para aí, em Agosto, dedais de contas pretas que ficaram por colher. Talvez por isso agora não tenhamos onde amurar, murados que estamos aqui, entre os pilares estreitos do viaduto de Gonçalo Cristóvão, colombo de amoras silvestres. Onde amoras?, perguntavam-se, para responder mais tarde, amor(as) onde quiseres, amor(as) é sempre que quiseres. Amor(a) é um par de botas pretas e uma vida contada em três sacos de plástico. Não é o passado nem o presente de alguns. Para muitos, este é o nosso futuro, de olhos postos no outro lado da ponte. Talvez um dia, passaremos. Futuro-sem emos somos.

M.D., Porto, 23 de Julho 2009

segunda-feira, agosto 24, 2009