quarta-feira, novembro 12, 2008

#Série 8 Como um bicho #

Pernas apertadas, a sentir a circulação subir cada vez mais devagar pelas veias acima, rumo à trombose. Os pés inchando como as esponjas do banho deixadas no canto da banheira onde o bolor se constrói em sólidas camadas, apesar da nova escova que o reclame dizia apagar tudo. Inchando como barrigas de obstipação, ou como o lábio esquerdo fendido pelo machado do punho após a porrada da última noite.
- Estes lugares não foram feitos para pessoas do meu tamanho. Já viu as minhas pernas? Como é que vou aguentar oito horas aqui. […] Claro que pedi! […] Não consegui, já estava tudo cheio, e eu vim fazer o check-in com três horas de antecedência […] Não somos obrigados a fazer na Internet, ou somos? Desde quando é que eles nos obrigam? [silêncio, seguido de um fundo suspiro] Pedi, pedi, um daqueles lugares de corredor, sabe, aqueles em que dá para esticar as pernas, antes da primeira classe […] EU SEI que agora se distingue entre “business” e “premier”, esses sacanas, à medida que a sociedade se estratifica, mais estratificados ficam os lugares no avião. O que acha desta sensação de estar aqui no fundo do convés qual escumalha de irlandeses no Titanic? […]Aquela gentalha a esticar as pernas e a beber martinis e o meu auscultador que não funciona, estou aqui dentro oito horas e não consigo ouvir o filme! Onde é que isto já se viu? […] Não me diga que todos estamos aqui, os outros não me interessam […]NÃO estou zangado! […] Cale-se, por favor, que eu fico FORA de mim! [ouve-se o ruído do indicador de luz que chama a hospedeira, talvez um dos poucos signos em que uma luz é o equivalente a um sinal sonoro]
Se nos sentamos à janela porque temos a certeza de que é hoje que vamos conseguir dormir, os olhos ficam especados a ver nuvens fazendo cócegas ao avião, o trânsito de pássaros cruzando-se connosco noutras paralelas auto-estradas da aviação. A comida vem, a comida vai, e não conseguimos dormir. Talvez veja um filme, jogue solitário, leia um romance, duas páginas, não me dá sono. Por que raio não trouxe o comprimido? O ecrã do mapa diz que faltam sete horas e quarenta e dois para o destino. No destino são uma da madrugada. Agora já estamos a sete mil metros de altitude. Oh, Miami e Santo Domingo parecem tão perto de Boston. O oceano é mesmo enorme e azul, na imagem, o azul da costa é diferente do azul profundo do mar-do-meio, não se vê a terra do outro lado, e ainda agora deixámos a Irlanda para trás. Já só faltam sete horas e quarenta e um minutos. Talvez vá à casa de banho, espreguiçar-me. O problema de ficar à janela e não dormir é o vizinho do lado que, apesar das pernas compridas, tomou um comprimido e aterrou antes do avião. Vou ter de passar por cima.
- Tomo este comprimido milagroso, e durmo a viagem toda. Não compreendo como consegues NÃO dormir. […] Tens medo? Medo de quê? […] Queres?
Se nos sentamos na coxia é porque temos a certeza de que hoje não vamos dormir, e então podemos levantarmo-nos, andar no corredor, esticar as pernas, cochilar para o lado vazio. Um lugar de coxia é como viver na última casa da rua, no último piso do prédio: podemos fazer festas ruidosas que só incomodamos um vizinho. Se nos sentamos na coxia porque temos a certeza de que hoje não vamos dormir é porque o corpo já se habituou ao lento ronronar do avião, a comida vai, a comida vem, e depois de um copo de vinho (nesta companhia não temos de pagar pelo álcool), duas páginas daquele romance chato sobre o arquipélago no Atlântico onde o cacau era a moeda de troca do trabalho escravo, a Alcatraz de Angola, a cabeça recosta-se, encosta-se, enrosca-se, a mantinha cheia de electricidade estática já se habituou à seda do lenço, a almofada dobrada vale por duas, e o vizinho, logo agora que os olhos começaram a pesar, quer ir à casa de banho, ou falar com o amigo ao lado de quem não conseguiu um lugar.









- No princípio, não conseguia dormir. Voava três, quatro vezes por mês e o meu corpo… [longo silêncio] tinha de estar em reuniões duas horas depois de aterrar, tomava um duche no aeroporto, mas a minha cabeça estava literalmente a jantar ou a preparar-se para dormir, entende? [aceno de compreensão] Eles dizem […] Eles, sabe, os especialistas no jetlag, fazem estudos e tudo isso. […] Eles dizem que devemos tentar habituar o corpo ao horário do país de destino uns dias antes, mas como é possível, se estamos com a cabeça no país de partida? […] Quando chego, tento dormir só nas horas certas. Na primeira vez que voei treze horas para Este, ao fim de três dias, tentando habituar-me aos horários normais, o corpo sentiu um cansaço tão, tão profundo… não consigo explicar-lhe, como se a minha cabeça quisesse estar num sítio e o meu corpo noutro, as pernas não iam, mesmo quando lhes gritava que fossem, os olhos desciam mesmo quando palitos imaginários os seguravam para permanecerem abertos, no escritório. Acordava às quatro da manhã como se tivesse dormido dois dias seguidos, olhava o tecto à espera de um sinal, e o corpo não respondia a absolutamente nenhuma das minhas ordens. […] Como me curei? Passei a tomar estes comprimidos excelentes que um amigo em Xangai me recomendou. […] Não sei bem o que contêm, mas creio que é uma mistura de ervas chinesas, muito eficaz. Quer experimentar?
As narinas começam a solidificar, primeiro junto à cana do nariz, depois mais perto da abertura, até que nem os dedos afiados, a tentar arranjar espaço para a entrada de ar, servem. Os olhos perdem humidade















- Trago sempre estas cápsulas de lágrima artificial comigo […] Quer?
a pele das mãos e dos braços estala como a superfície do deserto quando o sol bate sem misericórdia, ou como a máscara hidratante de lama quebrada por um sorriso forçado após os dez minutos de tempo regulamentar, imediatamente antes da recomendação para “lavar abundantemente com água morna”
- Sabia que se voarmos sempre para Oeste rejuvenescemos e se voarmos sempre para Este perdemos horas de vida? […] Trago comigo sempre este creme que as modelos usam! Foi uma amiga modelo que mo recomendou. Pode usar nos lábios, nas mãos e na cara, é totalmente regenerador. Ora experimente! Não é maravilhoso?
a casa de banho de cheiro intrínseco e dois por dois não tem papel higiénico ao fim de seis horas. E ainda faltam mais duas para começarmos a descer
- A minha técnica são as toalhitas de bebé: hidratam e também se usam na casa de banho. Quando andamos em viagem, nunca se sabe com que casas de banho nos vamos deparar, não é?
os ouvidos estalam no preciso momento em que nos sentíamos já embalados pela lenta turbulência, o trepidar sambista do avião, uma espécie de gingado de ancas que só se sente após a passagem das asas. Atrás de tudo. O homem das pernas compridas tinha razão em dizer que ali é como o convés de um navio. Certamente que os “premier”, os primeiros a entrar e os primeiros a sair, são os últimos a sentir tudo.
- Não usa chicletes? Eu não consigo nem levantar nem aterrar sem chicletes. São a minha salvação! Sabia que o aeroporto de Dublin é chiclete “free”? […] O que quer dizer? Ora, que não vendem chicletes, são contra, não vendem! Não acha um horror? Pergunto-me como os irlandeses voam, se não têm chicletes. […] Engolem saliva?
Assim se propagam preconceitos históricos: os irlandeses que no convés do Titanic foram os primeiros a afundar-se; os irlandeses que não mascam pastilha elástica engolem saliva para os ouvidos não estalarem. Tendo a certeza de que os irlandeses adoram ser reduzidos a um bom estereótipo, o avião tornou-se o espaço para todos os desabafos- Costumo vir várias vezes. Sabe como é, os preços dos combustíveis não nos deixam vir tantas quanto gostaríamos. […] Mangas. Sim, mangas. Compro-as e depois congelo-as




























durante uma semana, para assim durarem mais tempo e eu não ter de vir tantas vezes. […] Sabe como é, a família, a família [suspiro, seguido de silêncio] este país é muito tentador. […] A família em primeiro lugar, claro! Mas este país é um delírio para os sentidos. […] Não digo sempre, mas já aconteceu, sim. É mais quando venho com o grupo. Sabe como é, o grupo, os homens em grupo, e este país [novo suspiro], sim a culpa é do país, não é nossa. Este país que nos tenta! […] Sim, os colegas do negócio da fruta. […] Abacates também, mas a durabilidade é muito menor, no caso dos abacates. Não dão lucro se não forem vendidos rapidamente. Ou então, congelam-se durante mais tempo.
O homem não sabe que, além da banana preta que está há uma semana no frigorífico, não há nada pior do que um abacate descongelado: é o que o frigorífico faz à fruta, transforma-a em bicho, pretos por dentro, verdes por fora, moles, insípidos, decompostos, como homens em grupo que viajam para comprar mangas como pretexto para trepar sem camisinha em protesto contra o bloqueio a Cuba (diz o Caetano, não digo eu)
- Sim, sim, à Tailândia, também, mas até agora […] Digo-lhe, sem dúvida, Varadero é bem melhor, apesar dos preços, está caríssimo […] A família e os amigos agradecem as garrafas de rum mais baratas do que no Continente. E os habanos, claro está! Oh, sim, as habanas também, se é que me entende!
Este é o verdadeiro espaço do vazio onde toda nossa identidade construída se desvanece enquanto apertamos o cinto de segurança e a senhora nos ensina que o colete salva-vidas tem uma luz que brilha à noite, no mar. As imagens no panfleto mostram o aparelho em possíveis aterragens de emergência, na terra e no mar. As mangueiras que se soltam das portas que se abrem como comboios em andamento não são árvores de fruto, apesar de amarelas. Livre-se das jóias, os sapatos têm de ficar para trás. Siga as setas. Imaginarmo-nos aterrar no mar é um desejo sempre latente quando a senhora explica que com aquela luzinha, sem sinal sonoro, alguém nos poderá localizar, com certeza verá algo luzindo no breu da água da noite, antes das vagas, a hipotermia, e os tubarões levados para norte pelo aquecimento global dos oceanos nos comerem os ossos.
Filas de dez lugares, mais de trezentas pessoas enfiadas, enlatadas, entaladas, encurraladas, como bichos, oito, dez, doze horas, sem espaço, expondo as suas mais íntimas fragilidades, onde quem somos enquanto cidadãos deixa de fazer sentido. O ressonar óbvio do homem ao nosso lado, o movimento dos joelhos da senhora atrás de nós que visivelmente não cabe no lugar, as crianças a correr no corredor quando estamos todos quase-quase-quase a dormir, o gritar insistente do bebé que não entende a pressão da descida nos ouvidos, a mãe preocupada a pedir desculpa, tentando, pela linguagem das mães, dizer ao filho que engula saliva, engula, engula, mas ele não sabe ainda.
É ali que somos quem pensámos que nunca nos poderíamos tornar, em que falar com o vizinho do lado pode ser a salvação para horas de terror atravessado por um cinto de segurança azul, mas também em que é o vizinho do lado que pode determinar o terror de ter de ouvir, depois da chiclete, do comprimido, da pílula do jetlag, do creme hidratante regenerador, de uma enorme caixa de mangas para abafar o peso na consciência, a mais horrenda de todas as perguntas:
- Quer o meu pão?O corpo, perdão, a cabeça, diz que não porque isto são apenas horas contadas, pelos dedos, pelo relógio decrescente no ecrã do mapa (faltam duas horas e treze minutos para o destino; no destino, são seis horas da manhã; na origem, são dez horas da noite; estamos a voar a onze mil e quatrocentos e noventa metros de altitude, qualquer como a













































como a onze quilómetros do chão, a novecentos quilómetros por hora; Pequim é tão perto de Sidney no mapa, mas tão longe de Londres; olha, afinal estamos perto do Japão), não queremos o pão, não.
Mas a cabeça, perdão, o corpo, diz secretamente que sim, isto são horas contadas, mas: e se aterramos de emergência no mar? Dá sempre jeito um pão a mais, para o caso, só para o caso de precisarmos. Mesmo que se transforme em pedra pomes, duro e com buracos, após duas horas de exposição à falta de piedade do ar condicionado. Sim, um pão pode ser a nossa salvação se por qualquer eventualidade tivermos de permanecer naquele espaço por horas não estabelecidas previamente no ecrã do mapa, porque, no mapa, são só quatro dedos entre Filadélfia e São Francisco, quando, na realidade, eles podem decidir quem fica sentado em primeira, em business, em turismo, ou lazer, sobre as asas, no corredor, na coxia, no meio do meio, por cima do mar azul.
Podemos comer o pão, mesmo duro, tal como podemos comer o pão já amolecido pela água salgada. Podemos vender o pão ou trocar o pão por um creme regenerador, uma pílula suicida, umas meias de descanso, ou aquelas almofadinhas em que se encaixa o pescoço e que se enchem como as piscinas de plástico. As almofadinhas podem ser utilizadas como bóias, uma vez que acabamos de trocar o nosso colete salva-vidas pela garrafa de uísque que um dos passageiros premier pagou com o desconto duty-free.
Tu, que compraste um bilhete de avião para Paris e, aterrorizado no dia do voo, voaste para Santa Apolónia para embarcar no Sud-Express, disseste-me: voa o mundo todo e depois volta para me contares com foi. Foi assim, os nossos maiores terrores tão cuidadosamente escondidos em anos de convivência social a boiar ali, à superfície, o medo de não voltar a ver ninguém porque podemos ir calhar a um qualquer outro espaço, ter de partilhar o ar com pessoas contingentemente colocadas a teu lado, como num teste de personalidade, com quem tens de falar e não sabes muito bem como nem porquê, principalmente, no período de turbulência em que é necessário aliviar a pressão de fatalismos inusitados, e as hospedeiras de saltos com lencinho ao pescoço vêm responder à luzinha de sinal sonoro com um copo de água na mão. A elas não lhes incham as pernas. Talvez tenham o comprimido milagroso, dormir de olhos abertos e acordar, cinco mil quilómetros depois, num país tropical.

Maria David
New Haven, 8 de Outubro 2008

terça-feira, novembro 04, 2008

# A ANSIEDADE #






Uma vez perguntaram ao BUDA:«O que é que mais o supreende na Humanidade?»


«Os homens que perdem a saúde para juntar dinheiro e depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde.


Por pensar ansiosamente no futuro,esquecem o presente de tal forma que acabam por nem viver no presente nem no futuro.


Vivem como se nunca fossem morrer e morrem como se nunca tivessem vivido».

segunda-feira, novembro 03, 2008

sábado, outubro 25, 2008

# DEUS #






Concerto no teatro Sá da Bandeira 21 Outubro 2008 ,Porto

# ÁGUA #





















Tocar-te! Essa experiência sensível que percorre e arrepia o corpo leva-me à imersão total. Deleito-me em ti, crio-me nessas gotas mágicas que me envolvem, deixo-me estar. Sentir-te é como boiar no céu ou num qualquer ventre esquecido e agora recordado. Água! Espelho de mim mesma, imagem subtil que me refrescas e me agitas. Não quero subir. Teimo em ficar. Agora apenas vejo a minha imagem reflectida, agora...por dentro de mim, apenas vejo essa imagem, imagem de mim e do mundo que é fora. Agora que a vejo daqui, teimo em ficar. E fico. Pinta outro quadro, eu apoderei-me deste, é meu!
Rita Fernandes

sexta-feira, outubro 17, 2008

quinta-feira, outubro 02, 2008

# PERSONA #






























































“Persona é o conhecimento, um terrível conhecimento sobre a nossa solidão,a nossa singularidade.A nossa capacidade de tocar um ao outro.É uma confissão dos nossos medos.Do homem, do fracasso, da morte.Persona é um drama sobre p desespero, o silêncio.Um terror indescritível da vida em todos os aspectos.É um drama sobre a sensibilidade da pele, dos rostos e das palavras não entendidas.Persona é uma ilusão estilhaçada.Uma vitória sobre o silêncio.”
Texto do trailer de Persona
As Boas Raparigas...
PERSONA
INGMAR BERGMAN
Encenação de João Pedro Vaz
24 Setembro a 02 Novembro
ESTÚDIO ZERO, Rua do Heroismo

segunda-feira, setembro 08, 2008

# A VIDA #




“Quando se sofreu muito na vida, cada nova dor é simultaneamente insuportável e insignificante. A minha vida é como um memento mori da morte da arte europeia: há sempre uma caveira arreganhada ao meu lado para me lembrar da insensatez da ambição humana.Faço troça dessa caveira . Olho para ela e digo:”Escolheste o tipo errado.Podes não acreditar na vida , mas eu não acredito na morte.Vai-te embora!”A caveira solta uma casquinada e aproxima-se mais, mas isso não me surpreende.A razão porque a morte se mantém tão perto da vida não é a necessidade biológica - é a inveja. A vida é tão bela que a morte se apaixonou por ela , um amor ciumento, possessivo, que agarra aquilo que pode.Mas a vida salta agilmente por cima da morte, perdendo apenas uma ou duas coisas sem importância, e o desânimo é a sombra passageira de uma nuvem.”

Yann Martel
A Vida de Pi

domingo, agosto 31, 2008

# Noites Ritual 2ºNoite 2008 #











Palácio Cristal 30 Agosto 2008
foto_01_Rita Redshoes
foto_02_Linda Martini
foto_03_Buraka Som Sistema
foto_04_Pessoal

sábado, agosto 30, 2008

# Noites Ritual 2008 #



















Palácio de Cristal, 29 aGOSTO 2008
Foto_01_Sizo
Foto_02_Micro Audio Waves
Foto_03_Sam The kid
Foto_04_Tiago Bettencourt

quinta-feira, agosto 14, 2008

# Série 7# Procura-se

Dois pianos abrigam-se mutuamente da ameaça de chuva. O da esquerda, desafinado, está virado a oeste, de onde chegam sempre as nuvens carregadas e o vento húmido do Atlântico, depois de soprar com vigor sobre os carneiros brancos nos cumes azuis das vagas. O da direita, intacto, virado a este, onde o ar polar do Ártico traz consigo as últimas neves, gelo e bolas gigantes de granizo como os novelos de lã dos carneiros tosquiados. Costas com costas, as pretas e as brancas dos pianos não se vislumbram, nem sequer se ouvem, mesmo tocando mudamente para si dentro da protecção de madeira que as cobre. São dois pianos parados, assim, como se fosse normal estarem em movimento, o som a voar dos pedais à cauda; assim, parados como é normal os pianos pararem quando todos deixam a sala de concertos e o Steinway fica ali, quieto e mudo, orgulhosamente preto e lustroso, como um bom par de sapatos de homem, a fazer olhinhos às brancas. Os pianos não se conhecem mas fazem-se companhia. Ali, no meio daquela estrada barulhenta de ambulâncias e carros de corrida dos novos-ricos dos subúrbios, é importante que os pianos permaneçam juntos na eventualidade de um humano chegar, levantar a tampa e, no meio daquela estrada poluída de veículos pesados e prioritários a caminho do hospital e do jantar quente na mesa, a dois passos da lavandaria que me roubou o casaco de presilhas, tocar as brancas e as pretas em simultâneo. Repito, em simultâneo, e, assim, deixar o som sair.



































Todos os pianos são mudos até serem tocados.

Como um corpo, o da direita sente as cordas vibrarem de horror quando o humano toca as teclas claro-escuro do piano do Oeste. Diria antes, faroeste porque aquela harmonia completamente desafinada soava a um acordeão irlandês tocado por um músico no Texas a tomar uísque escocês. Arrgh, arde na garganta! O próprio piano do Oeste compreende o desespero do outro, porque são as suas cordas, porra, que estão a ser puxadas até à exaustão por estes dedos humanos sem ouvido para a música. Pára imediatamente!, gritam as cordas do Oeste, sopradas com os ventos atlânticos, quando os dedos tocam a escala superior. O da direita suspira de alívio, mas por pouco tempo, porque sente os passos, e atrás dos passos vêm as mãos, os dedos, as unhas do humano tocarem as suas teclas intactas. O do Este ainda sente o frio da geada desta manhã, mas as mãos do homem estão quentes e ele treme de desgosto ao sentir aquela mão papuda, redonda, pesada, grossa e peluda a tocar as suas delicadas brancas e pretas. Os dois pianos, assim violados pela mão humana, fecham os olhos lentamente na esperança do resgate do momento anterior, quando não havia homens, e quando estavam simplesmente (já ninguém usa mais o verbo estar; estar estando), à espera da chuva, em frente a uma garagem fechada, no meio do nada. Tenho testemunhas.
Estes dois pianos não sentem falta do humano que ali os deixou, abandonados à sorte dos carros do lixo da Câmara, dos bombeiros ou da caridade. Não sabem para onde irão, provavelmente não sabem de onde vêm, não sabem voltar, não são como os gatos que sempre encontram o seu caminho de volta.

DESAPARECERAM
Dois pianos, de madeira castanha, um pouco velhos mas muito queridos.
Costumavam estar em frente àquela garagem. Agradece-se a alguém que os veja, por favor contacte
Verónica
Maria David
Liverpool, 24 de Abril, 2008