sábado, abril 02, 2011

#Serie nº13 End #

O que a fotografia eterniza, o texto faz por esquecer. É já um rasto traduzido, transmitindo, através de uma forma outra, o imaculado da parede branca, a rectidão do contorno dos objectos, alfinetes rasgando a pele contra a madeira, retratos em caixilhos para emparedar a moldura. Descrições.
É possível verter toda uma cidade num rosto, mas não se pode abandonar o rosto como se abandona a cidade, com as suas sarjetas a olho nu e o olho a céu aberto, quase invisível de tão tecto, que levaria a pensar que quando deus chegou até aqui já havia gasto todas as cores noutros meridianos e que com o preto e o branco sobejantes fez o cinzento deste país.
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Ainda assim, o azul enganador ao fundo do túnel é apenas o cinza claro refractado no grande espelho do Tamisa. Ser ou não ser céu é a questão.
Mas é no subterrâneo que está a resposta. Quando antes as bombas caíam do céu como elefantes sobre jarras de cristal, o tecto pintava-se de azul, de verde e de amarelo. Havia possibilidades abertas por frechas, e rasgadas por flechas, sonhos encaixados atrás do cinzeiro, despojos desta noite.
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Tudo tem a ver com a sombra. Quando o sol bate a pique, a sombra é mínima. Mas o cinzento não permite ver a gama de cores, os matizes dos contornos, as definições delineadas pelos corpos que se imobilizam com um único propósito na cidade sem destino. Aqui a cidade é parda como o corpo de uma mulher a contra-luz. Perdeu a cor da carne, do sangue e da lágrima que deixou de verter. Perdeu o rubro do seu próprio cabelo escovado, lavado e esticado contra a chuva que torna a melena carapinha. Aqui a cidade tornou-se cinzenta, fria e politicamente correcta, com os seus trejeitos de boca e os seus olhares severos e reprovadores do que se pode e não se pode dizer, dos seus receio-que-não que querem dizer o seu contrário, com os seus sorrisinhos cínicos de civilização avançada, do seu parlamentarismo precoce e dos seus sonhos imperialistas perdidos algures no Oriente agora re-absolvidos por repetição em três frentes no oriente médio.
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Não aguento mais viver aqui. É como viver a preto e branco, sem paleta, limpando a terra e o sangue para debaixo do tapete, ignorando que o sangue, dessa viscosa propriedade líquida, escorre pelas paredes alvas e pelas portas de casas devolutas para formar palavras com as quais ninguém sabe lidar: fuck off, sim, apetece gritar, com Sid e com Cid, o meu exílio em terra de rainhas salvas por castelos de cartas.
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Este país deixou de fazer sentido: tudo diz tudo, não há espaço para o silêncio, para a diferença, para a divergência de sentido. É cacofónico, repetitivo, faz eco e diz tudo até à exaustão. Por isso é que a voz de sirene repete cuidado com o intervalo entre a carruagem e a plataforma, chegámos ao rés-do-chão, portas abrindo-se, cuidado com o degrau, espaço perigoso, não passar a linha amarela, não fume, desligue o telefone, olhe para a direita quando atravessa em frente, dirija-se à cabine número dois, bilhetes para hoje, bilhetes para amanhã, bilhetes para viajar, cuidado com o cão, não deixe a sua mala ao descuido, a sua mala pode ser destruída, hoje choveu por isso não use sapatos de sola escorregadia, cuidado para não cair, cuidado ao cair, work in progress, limpeza em acção, proibida a entrada a pessoas estranhas ao serviço, atravesse com cuidado, trânsito pesado, trânsito obsoleto, trânsito parado, bus, táxi, ladrões serão capturados, julgados, enjaulados, não admitimos ofensas ao pessoal, recolher obrigatório, últimos pedidos, balaústres em movimento, aperte o seu cinto de segurança, em caso de incêndio não corra, não grite, mantenha a calma, não use o elevador, silêncio, colete salva-vidas debaixo do seu assento, em caso de despressurização da cabine as máscaras de oxigénio cairão automaticamente, tome agora um minuto para localizar a sua saída de emergência mais próxima, esta é uma zona de descanso, evite fazer ruído com o seu telefone, o seu aparelho de música digital ou o seu bebé, entrada proibida a cães, entrada proibida a crianças, entrada proibida a bicicletas, proibido alimentar os patos, os pombos, os peixes, bicicletas acorrentadas a esta grade serão removidas e talvez destruídas pelo pessoal de segurança, se vir um suspeito contacte as autoridades, não pise a relva, afaste-se, pela sua saúde, obstáculo em movimento, circule com cuidado, perigo de alta voltagem, não atire lixo para o chão, use preservativo, as doenças sexualmente transmissíveis não são visíveis a olho nu, não beba mais do que 21 unidades de álcool por semana, se conduzir, não beba, trave com o motor, não fume, não coma dentro do autocarro, não ouça música alto, use os seus auscultadores, e ainda assim, não ouça música alto, pelos seus ouvidos, vire à direita, vire à esquerda, agora, a luz vermelha indica porta trancada, fim.
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Esqueceu-se de dizer: atenção ao intervalo entre o mundo e as pessoas.
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M.D., Nottingham, 1 de Abril 2011
Maria David

quinta-feira, março 24, 2011

#Aos Políticos do meu País #

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“A virtude é demasiado passiva, demasiado estreita. Pode motivar os indvíduos,mas, para os grupos, sociedades e toda uma civilização, é uma força insuficiente. As nações nunca são virtuosas, embora por vezes possam pensar que o são.Para a humanidade em geral, a ganância bate aos pontosa virtude.”
Ian Mcewan
Solar

quinta-feira, março 03, 2011

#Ainda vai continuar no Centro Português de Fotografia#

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O Centro Português de Fotografia ( CPF ) do Porto decidiu prolongar até 13 de Março a exposição do prémio Estação Imagem | Mora, pela afluência e interesse que tem despertado junto do público.

segunda-feira, janeiro 31, 2011

# Peço Desculpa,Porto, 29.01.2011 #

#PP_ACAMPAMENTO_23
#PP_ACAMPAMENTO_24
#PP_ACAMPAMENTO_22
#PP_ACAMPAMENTO_15
#PP_ACAMPAMENTO_23
#PP_ACAMPAMENTO_13
#PP_ACAMPAMENTO_20
#PP_ACAMPAMENTO_18
#PP_ACAMPAMENTO_01
#PP_ACAMPAMENTO_09
#PP_ACAMPAMENTO_08
#PP_ACAMPAMENTO_03
O cheiro mantém-se horas a fio depois de termos passado lá. Não se sabe se no corpo ou na memória. Não só o cheiro intenso a podre, nauseabundo, mas o cheiro a gente que não vimos.


Dizem que vieram de Leste - 30 pessoas de uma mesma família, mais 13 não se sabe de onde. Talvez tenham lido sobre os prémios que algumas autarquias portuguesas coleccionam, pátria de bons costumes em integração de imigrantes. Talvez tenham acreditado. Depois isto: barracas, lixo, plásticos a improvisar tectos e paredes, colchões entre as ruínas, ruínas entre tudo o que vemos.


Uma e outra vez já nos cruzamos com eles pela cidade, de mão estendida nos semáforos. E então ignorámos. Não o ignorar egoísta, o ignorar inchado de razão - não se vai para outro país para isto


(e ainda o cheiro, não se sabe se no corpo ou na memória)


Se por um momento a razão desincha, de novo o raciocínio a fazer força: provavelmente nem querem ser ajudados.


(“Tanto é o que precisamos de lançar culpas a algo distante quando o que nos faltou foi a coragem de encarar o que estava na nossa frente”)


Talvez seja verdade. Ou talvez não. Tanto pode como não pode. Não queríamos estar ali, mas já não podíamos não estar ali. A mão estendida no semáforo, é possível que o regresso a casa, à noite, seja para estas ruínas, já perto de onde o Porto deixa de ser Porto. Já muito perto de onde o Homem deixa de ser Homem.
Mariana Pinto Jornalista

terça-feira, janeiro 25, 2011

sábado, janeiro 22, 2011

# PORTO 22-01-2011 #

Esta manhã no Viaduto da Rua 05 Outuubro, continuação do trabalho "Enquanto Estamos Acordados"

#PP_ACORDADOS_01
#PP_ACORDADOS_02
#PP_ACORDADOS_01
#PP_ACORDADOS_01
#PP_ACORDADOS_02
#PP_ACORDADOS_02
Cidade Do Porto
PORTUGAL
Séc.XXI