sábado, janeiro 22, 2011

# PORTO 22-01-2011 #

Esta manhã no Viaduto da Rua 05 Outuubro, continuação do trabalho "Enquanto Estamos Acordados"

#PP_ACORDADOS_01
#PP_ACORDADOS_02
#PP_ACORDADOS_01
#PP_ACORDADOS_01
#PP_ACORDADOS_02
#PP_ACORDADOS_02
Cidade Do Porto
PORTUGAL
Séc.XXI

terça-feira, janeiro 18, 2011

#Serie# Segunda Temporada nº2

# Estratégias de reconhecimento #

Já tem idade para saber com que almofada dorme melhor. Se alta, se baixa. Não
importa. A verdade é que há dias em que dorme melhor com uma almofada baixa
e mole, flexível, que se encaixe sob o pescoço como aqueles cotovelos de ar que se
usam para dormir nas viagens transatlânticas.

(reconhece o seu eurocentrismo pela referência as viagens atlânticas, por oposição às
índicas ou pacíficas. E passa à frente)

Noutras noites, prefere almofadas altas e firmes como um sofá de cabedal, para quem
dorme de lado, recomenda o Ikea.

(reconhece as suas referências capitalistas como esta à grande superfície sueca de
design a preços de saldo, para a qual talvez uma criança tenha trabalhado por um
dólar/dia, ou um euro, vale menos por causa das oscilações nos mercados e do import-
export. Reconhece o grande capital, admite fazer compras no Continente, e passa à
frente)
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Surpreende-se por não saber ainda se deve comprar uma almofada alta ou baixa.
Nessa hesitação está toda a perplexidade da existência de números redondos, décadas
contadas pelos dedos de uma mão. Receia pôr o ponto final nessa mão e passar à
próxima. Só tem duas mãos: nessa hesitação está toda a perplexidade da existência
– ponto. Há 15 anos sabia tudo, não hesitava, lia Proust, mas sabe (e reconhece)
que nunca terminou o sétimo volume por pavor aos pontos finais. Deixa, portanto, a
porta entreaberta, inclusive para a entrada dessa incomensurável sensação de culpa
histórica.

(reconhece a cor da pele, branca, a cor dos seus ascendentes, brancos, europeus,
galegos, transmontanos, e reconhece que eles eventualmente viveram em África, com
pretos. Reconhece a herança colonial e passa à frente)
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Chama-se auto-punição, mas aprendeu a viver nesse limbo entre a indulgência e a
clemência. Recentemente inspirou-se nas listas de Sontag, coisas como ela também
fazia mas já rasgou – e não haverá descendência que a continue porque é ela (e não
outra) a “mulher que não queria ter filhos de seu ventre”. Continua a fazer listas como
se tivesse quinze anos, e há quinze anos que a lista é quase sempre a mesma. As
artérias têm colesterol acumulado, o médico diz que nunca é tarde para andar, e falta-
lhe o ar a subir as escadas. O coração bate cada vez mais depressa, mas ela sabe que é
amor, não arteriosclerose
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(reconhece a condição pós-moderna da sua existência, reconhece ter lido os
hermenêuticos, os estruturalistas e os pós-estruturalistas, reconhece não distinguir
foucault de deleuze de derrida, reconhece ter-se tentado pelo badiou e pelo negri, mas
ficou-se pelo gil. Reconhece ter bufado de tédio no espectáculo da filosofia-pop do
seminário do zizek. Como agora bufais vós de tédio por este auto-reconhecimento
punitivo da minha condição pós-traumática depois do fim da história enquanto sujeita
– não quero ser sujeito – pós-11/09. Continua a reconhecer o eurocentrismo na sua
condição, sabe que nasceu na Europa, escreveu até um livro sobre isso, mas não sabe
o que ela ainda quer dizer. Erasmus, Maastricht, Schengen ou Bologna?)
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Olha para trás e reconhece tudo. Pergunta-se para quê continuar a escrever se o
tempo da revolução já passou. Foi há 10 anos que disse “o amor é o silêncio” numa
tarde outonal de árvores vermelhas na esplanada da avenida de Berna. Aí começou
a Europa em espiral descendente de horror e de esperança. Escrevia cartas de amor
com Proust à cabeceira, à sombra de jovens rapazes em flor, Albertina prisioneira,
Albertina desaparecida, à procura do tempo reencontrado. Há que procurar a
revolução verdadeira.
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(reconhece que não vai ler todos os livros. Continua a fazer listas, mas reconhece
que são inúteis porque não há vida para além dos russos e dos modernistas. Admite
novamente o seu eurocentrismo e, diz, até lê autores pós-coloniais, africanos,
brasileiros, latino-americanos, encantam-na o Carpentier, o Borges, o Cortázar, o
Pepetela e a Lispector, mas toda a beleza da violência está nos russos, e toda a poesia
do niilismo está nos modernistas. Não quer ser bloomiana e dizer com Shakespeare,
tudo, sem Shakespeare, nada; abre a porta ao Camões e deixa-a entreaberta para quem
quiser entrar)

Lista de pendentes dos últimos quinze anos: 1) escrever sobre recomeços; 2) escrever
sobre o duelo de Pushkin. Um escritor que morre num duelo é bravo e literário.
Hemingway matou-se com uma pistola. Kerouac morreu bêbado. Barthes atropelado.
Woolf foi a Ofélia que Shakespeare desenhou. Pergunta-se muitas vezes como há-de
continuar a escrever se não conhece a morte. Gostava de poder jogar xadrez com ela,
mas só sabe que o cavalo se move em ele (elo, ela).
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Apesar da sua arrogância já não justificada pela idade, reconhece-se no espelho.
Ainda. Talvez hoje, mais do que dantes, com saudades de tangerinas doces, na
condição insular e pós-traumática do não-lugar onde as amendoeiras não florescem e
as vacas se assentam no prado verde quando a chuva se aprochega. Saudades já não
dos jacarandás lilases – essa fugaz flor de Verão (bela como uma actriz americana)
– mas da rosa camélia (bela como uma actriz italiana), e das japoneiras de Inverno
amadas pelas velhas doroteias.

M.D., Nottingham, 11 Janeiro 2011
Maria David

quinta-feira, janeiro 13, 2011

Exposição Centro Português De Fotografia.

No próximo dia 15 Janeiro de 2011 , pelas 17h00, inauguração da exposição PRÉMIO FOTOJORNALIMO 2010 ESTAÇÃO IMAGEM MORA, que terá lugar no edificío da Ex-Cadeia da Relação do Porto.

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sexta-feira, dezembro 17, 2010

# Mãe #

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Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?

Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti — não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!

Miguel Torga, in 'Diário IV'

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Um Grande Grande Beijinho

quarta-feira, dezembro 08, 2010

# New York Photo Festival #

Fui selecionado com uma fotografia do Projecto "Na casa de..." para integrar a exposição New York Photo Festival, que inaugura já no próximo dia 17. O trabalho seleccionado pelo júri resulta do projecto que venho desenvolvendo há oito meses. Consite em visitas ao domícilio de gente tocada pela pobreza e pela violência da crise actual e com percursos de vida complicados. Um trabalho que tem sido desenvolvido em estreita cooperação com o assitente social José António Pinto. Além do anfitreão, as fotos pretendem funcionar como uma espécie de visita-guida pelos seus espaços do quotidiano, pondo em evidência lugares e condições de vida que muitos podem julgar terem desaparecido já do dia-a-dia das cidades modernas.

#PP_NA_CASA_93

O PowerHouse Arena foi inaugurado pela Editora PowerHouse Books, em Outono de 2006, inserido no distrito de DUMBO (Down Under Manhatten Bridge Overpass) Brooklyn NY, como laboratório para o pensamento criativo.

O espaço acolhe exposições, instalações, performances,
estreias e lançamentos, tendo sido eleito um dos mais importantes da década pela revista Wallpaper. Além da galeria, também a livraria pertence à editora comunitária.

Em maio de 2008, Daniel Power e o co-fundador Frank Evers lançaram o primeiro anual New York Photo Festival com curadoria de Martin Parr, Kathy Ryan, Martin Leslie e Tim Barber. O festival de 2010 será comissariado por Vince Aletti, Kessel Erik, Richtin Fred, e Lou Reed.

O objectivo do New York Photo Festival é de identificar e documentar o futuro da Fotografia em todas as suas formas.

ler mais em: www.newyorkphotofestival.com

http://artephotographica.blogspot.com/2010/12/paulo.html

sexta-feira, dezembro 03, 2010

# Já passaram dois Anos #

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Um Grande Abraço para o meu Amigo Paulo

sexta-feira, novembro 26, 2010

terça-feira, novembro 23, 2010

#Série# Segunda Temporada

Andar de bicicleta é como aprender a ser trapezista. Não admira que a minha bicicleta tenha aguentado rodinhas de apoio até aos seis anos – já todas as crianças do bairro andavam sem elas, mas eu tinha medo. De cair. É verdade, milhafre ferido na asa.
Tive sempre medo, o que não faz de mim uma acrobata (talvez me devesse chamar Temia). Mas aprendi que de bicicleta podia sonhar atingir a velocidade da luz, uma claridade brilhante cheia de pontos negros (medo); podia sentir o vento nos cabelos (olha, olha, sem mãos!) e ser equilibrista por minutos mas também sentir a chuva e apanhar pneumonia (medo) – queria ter escrito apanhar a chuva e sentir pneumonia mas tive medo que soasse mal, sobretudo em cima da bicicleta, o vento a levar as palavras para trás, ninguém ia conseguir perceber, com a velocidade com que as palavras voavam para trás e eu a pedalar para a frente. Também podia chegar mais depressa ao destino sem precisar de falar durante todo o caminho – é cansativo ter de falar todo o tempo, mesmo quando se vai a subir a ladeira e o esforço do pedalar verifica-se com a ligeira subida dos quadris a puxar a bicicleta para cima, como os rapazes na subida à Serra. Todos os anos ia ver a Volta passar em Santiago, mas tinha medo que um ciclista se despistasse e levasse todo o pelotão (eu dizia Plutão, porque achava que aquilo era mesmo de outro planeta) atrás para a frente, para o chão.
Por isso, comprei um capacete. E um colete reflector como os rapazes das obras (referência propositada ao género acompanhada de assobio à rapariga que passa justamente de bicicleta aqui em frente). Ainda assim, tenho medo dos carros, e dos autocarros, da queda e da velocidade, de cotovelos esfolados, escoriações e braços partidos, tenho medo de histórias de pessoas que caíram da bicicleta (um cão atravessou-se-me à frente e) mas admiro as que não sabem pedalar (ou terei medo?).
Essa era a primeira temporada, infância, o mundo já a cores e a RTP só. A segunda temporada é monocromática, apesar da SIC. Temo.
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É azul: Portugal intimidado por esse manto de nuvens vogando como pássaros negros sobre o símbolo da cruz de Cristo.
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É verde: Portugal reflectido nessa bola de espelhos de esperança (o futuro tem luzes dentro).
#PP_BAR_ABERTO_01
É vermelho: a pele de Portugal eriça-se com o leve toque de uma pluma. Mas é breve esse excitar, é apenas instinto, ameaça de rebuliço, fogo mergulhado em banho quente (maria).
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É preto e é branco: rapidamente o monocromatismo gera cinza nos olhos fechados e a tristeza sobre o ombro aconchegado espalha-se como medo generalizado.
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A segunda temporada é longe (daqui). Também a temo. Olha só: Portugal é a esperança de frente para o mar. Tudo isto é belo, olha o sol!, que quente na pele, a areia é tão branca que quase nos cega, não há nuvens, o céu é de um azul infinito, o mar devora arribas como um coração em tumulto apaixonado, os golfinhos saltitam nas manhãs do Sado, e os robalos andam à nossa beira como rafeiros companheiros a vir cheirar, um país de vinhas e oliveiras, sobreiros descascados às camadas, pinhais verdes, amendoeiras em flor, laranjeiras carregadinhas, milheirais fartos e arrozais
alagados, vacas leiteiras em pastos verdes, barrosãs de negros socos nos olhos, porcos pretos pastando na planície, abacaxis pequenos e doces, ameixas pretas, ameixas brancas, ameixas vermelhas, ameixas pequenas, caranguejolas, suculentos dióspiros e romãs vermelhas rubras, maçãs bravo e pêras rocha, melões verdes, melões brancos, meloas, melancias grandes, pêssegos macios, pêssegos rosa, pêssegos careca e nectarinas, alperces nêsperas e magnórios, garbanzos e grão de bico, xíxaros e feijão frade, uma língua mais rica do que qualquer outra e ainda assim, o único espaço do mundo onde não consigo escutar o som da minha própria voz. Sobretudo quando ela me sussurra, diante desse mar imenso de desespero e esperança, diante desse sol que queima e dessa (às vezes) chuva inclinada que vem de baixo como uma revolução.
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Temo a voz que diz, Não voltes, não há emprego, este país não anda para a frente, somos explorados, sugados, chupados, precários, inexistentes, intermitentes, não temos voz, ninguém nos ouve, já ninguém grita, tenho um curso, um mestrado, uma pós-graduação, um doutoramento, falo cinco línguas, trabalho num call-centre, numa empresa de recrutamento, num café, numa loja, sou caixa de supermercado, sou bolseiro, desempregado, vivo de estágios há dez anos, voltar, nem penses! somos a geração setecentos, os nossos sonhos foram descontados, os nossos descontos foram roubados, não pertencemos a nenhuma empresa, a recibos verdes somos independentes, por nossa conta não conhecemos outrem, existimos para nós mesmos no lamaçal da fuligem, vou partir, que queres?, nada mais há aqui para fazer, terra da fraternidade, sou arquitecto, jornalista, tirei história, português, inglês, francês, direito, economia, gestão, sim, sou doutor, mestre, engenheiro, professora, queremos casa, trabalho, pão, saúde, educação, existimos a prazo, sem data, sem plano nem sonho, estamos para aqui deixados, à beira mar plantados, agora sim, medicados, que queres? Este país não é para jovens. A segunda temporada é no Brasil, é em Angola, é na China, grandes planícies verdes, novas oportunidades, bicicletas de esperança. Bêbados e equilibristas.
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m.d., nottingham, 18 de novembro 2010
#PP_POLONIA_21
Maria David