sábado, janeiro 14, 2012

#Não Vou Por Aí #

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
Cântico Negro
José Régio
#pp_nao_03
#pp_nao_01
#pp_nao_02

sexta-feira, janeiro 06, 2012

# A vida a despedir-nos #

“Até amanhã. É interessante como levamos todos os dias da vida a despedir-nos, dizendo e ouvindo dizer até amanhã, e , fatalmente, em um desses dias, o que foi último para alguém, ou já não está aquele a quem o dissemos, ou já não estamos nós que o tínhamos dito.”
José Saramago
Ensaio sobre a Lucidez
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quarta-feira, janeiro 04, 2012

# Série nº15 Memória #

Debris: é o que os ingleses chamam aos escombros, destroços, entulhos que restam depois da implosão. Eles dizem melhor numa palavra aquilo que nós explicamos em muitas: fragmentos jogados ao acaso pela força da destruição.
É uma palavra de origem francesa – o dicionário diz que foi no século XVIII que chegou ao inglês, atravessando o canal, de barco, a nado, talvez, a palavra na mão qual lusíadas náufragos, dando à costa (debris) como se fosse memória de um verso maior. Apenas a proa, ou a popa, memória de um barco, ou simplesmente o mastro (debris) de uma bandeira pronta a ser queimada em noite de revolução.
Se a terra é memória do homem, a escama é memória do peixe que não sabia se havia de fugir, ou morder o anzol. Enforcado, libertou-se, sangue na guelra finalmente escachada sobre o seixo de praia.
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Mas a praia não é só areia, ainda que cedo tenha aprendido a escolher emocionalmente entre elas. Eram todas diferentes:
a de Sines era muito muito fina e tinha linhas escuras que compunham quase-corações de Viana. Esse lado escuro da areia vinha das rochas do paredão (eu dizia padrão, por lapso, mas hoje sei que estava certa: porque as rochas do porto se encaixavam como num puzzle);
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a de São Torpes era ainda mais fina. Colava-se à pele quando vínhamos da água. O vento levantava-a e era vê-la nos olhos, nos ouvidos, no nariz, na ponta das unhas. Entranhava-se. Levava-se para casa a memória da praia e tornava-se invisível no chão de madeira clara. Por isso, dias depois, se sentiam ainda pequenos debris de praia quando subíamos as escadas.
a da lagoa era lodosa e húmida – a da lagoa mesmo, não a da costa, que tem conchinhas partidas e conchinhas grandes de que se fazem cinzeiros sinceros nos cafés de praia. As pequeninas decoravam aquele restaurante – como é que se chamava? – que um dia deitaram abaixo e que tinha conchinhas em volta das janelas, como aquela casa de Brescos aonde eu quis sempre morar.
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a das Areias Brancas era a melhor, grossa, soltava-se, deixava-nos, juntava-se entre si, ainda que fizesse, com as humidade do mar da véspera, pequenos croquetes que atirávamos uns aos outros como se fossem bolas de neve. Era uma areia independente dos homens, apesar de deixar colados na pele pequenos cristais como mosaicos de debris no corpo. Não é por fazer jus ao nome, por ser branca, mas durante muitos anos, porque o mar enrolava na areia e ninguém sabia bem o que ele dizia, coleccionava no sopé da duna quilos de piche, assim mesmo, debris de crude, memória de grandes acidentes com grandes petroleiros quando se construía o grande porto.
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A memória da minha infância confunde-se com a das minhas praias. Mas as minhas praias são muito mais do que os seixos partidos desse mar que bate na areia e desmaia: são essas pequenas rochas partidas, conchas que vêm em lascas e as que vêm ainda inteiras, negras-azuis como a casa de um mexilhão, restos de coral que vão, algas secas que vêm, caricas que ficam, paus, cordas do pescador de robalo (cuidado com o fio invisível, e com o anzol) e aquela luva azul que perdi, uma tarde, numa praia de inverno, deserta, como em Miramar (mira, mar), janelas verdes e portadas brancas, ondas ao longe embatendo nas rochas, o vento assobiando nos galhos, o Brecht a correr pelo jardim, a caixa do correio pintada de vermelho (como a tua camisola) e eu de vestido às florinhas. Queria ter passado o resto dos meus dias nessa casa de praia, com os meus óculos de velha e os meus cabelos cada vez mais brancos (o tempo passou tão depressa e nem dei por isso), os meus livros encastelados como claras, empoeirados como pipas de vinho nas adegas, espalhados pelo chão com copos de rum tombados, cortinas brancas de duas laçadas (de um lado e do outro), o candeeiro de pé alto, amarelo, o cadeirão de couro rasgado nos braços, a cama de ferro preto, um dossel de tule comido pelos mosquitos, velas a roer as pontas negras das folhas, eu ainda a
miramar
mira-amar
amar-maria
Balbucio. Perdida a memória de amar, resta essa outra, longínqua, de lenços brancos rasgados que um dia podiam ter sido bandeiras. Não há sobra, escombro, entulho, já não há nada de novo aqui, debaixo do sol. Senão este pássaro do sul (debris) ferido na-i-asa. Bate na areia e desmaia, porque se sente infeliz.
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M. D., Porto, 2 de Janeiro de 2012

quinta-feira, dezembro 29, 2011

#Uma noite no Inferno, um dia no Paraíso….#

#PP_DRIVE_01
Uma noite no Inferno, um dia no Paraíso….
Mal refeito de uma noite sofrida de pesadelos, o fotógrafo, de bigode franzido, permanece desconfiado das promessas de visita a um lugar idílico, e junta-se ainda pouco disponível aos demais elementos ‘da expedição’, que hão-de levá-lo estrada fora, algures no monte. Entra no automóvel e confessa voluntariamente as diatribes causadas pelo sono, ou melhor, pela ausência dele. Em breve, o dia vai revelar-se perene de surpresas e o semblante tolhido e carregado do portador da câmara vai metamorfosear-se e esboçar sorrisos de contentamento.
Vencidas umas boas duas horas de caminho, é servida a primeira dose de paisagem arrebatadora nas imediações de Drave. Os circunstantes, em ritmo de aproximação descendente à aldeia, aprestam-se a fazer um percurso que mais se assemelha a uma endoscopia às gargantas montanhosas que impedem o olhar de fixar-se noutras direções.
O jipe que nos transportou pelos caminhos sinuosos através da montanha já algum tempo ficou para trás, estacionado no limite autorizado. O trilho é feito a pé, entre paragens para observar um pormenor arbóreo, uma ladeira, um curso de água ou um simples muro. Avista-se Drave e o seu recorte de casario majestoso de xisto, envolto em pequenos prados em declive. O fotógrafo há muito se deixou cativar e quase sempre fica na retaguarda, onde se detém a captar um pormenor da máxima importância, experimentando ângulos e perspetivas, testemunhando claros sinais de carros de bois que outrora venceram a encosta.
Chegados ao local, é difícil divorciarmo-nos dele, agora que calcorreamos todos os carreiros e visitamos as casas, as que caíram e as recuperadas, e Drave com o seu quê de habitável e a mesma porção de abandono, não verga, continua ali, digna, tributária de quem a visita e lhe devolve o esplendor num convite das suas virtudes feito passa-a-palavra. O fotógrafo faz zoom-out e vem carregado: de imagens e satisfação. Sem dormir?! Não é (g)Drave!

João Fernando Arezes

domingo, dezembro 25, 2011

sábado, dezembro 17, 2011

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Um beijinho muito muito grande para ti mãe, gosto muito muito de TI.

Vem
Come to me
O Espírito da Paz

Vem
Além de toda a solidão
Perdi a luz do teu viver
Perdi o horizonte

Está bem
Prossegue lá até quereres
Mas vem depois iluminar
Um coração que sofre

Pertenço-te
Até ao fim do mar
Sou como tu
Da mesma luz
Do mesmo amar

Por isso vem
Porque me quero
Consolar
Se não está bem
Deixa-te andar a navegar

Madredeus

quarta-feira, dezembro 07, 2011

# O FIO DA VIDA #

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O Fio da Vida
Ana Carolina

Já madruguei nos teus braços
Toquei-te a boca num beijo sem fim

Já foste minha nesse sonho que acabou
Já foste a luz que agora o tempo apagou

E se essa luz me afagava
De cada vez que passavas por mim

Agora queima-se o pavio deste amor
Fecha-se a porta pra tentar fugir à dor

É só poeira

Da caminhada que eu já fiz
Vou-me afastando
Do somho aonde fui feliz
Ando perdido
Como um amante sem lugar
A vida acaba mesmo sem antes começar
aqui

Eram os teus lépidos olhos
Que davam corda ao meu coração

Agora encosto-me à saudade de nòs dois
Abro a janela para a luz que vem depois


É só poeira
Da caminhada que eu já fiz
Vou-me afastando
Do sonho aonde eu fui feliz
Ando perdido
Como um amante sem lugar
A vida acaba mesmo sem antes começar
aqui

Rodriguo Leão
A Montanha Mágica

quarta-feira, novembro 30, 2011

#Estamos a Recuperar #

HH_
A memória dos dias felizes havia-se transformado num ponto distante incapaz de ser invocado. E isso era bom. Não queria lembrar os dias felizes - aquele sorriso subtil do chegar a casa, do ter onde chegar. Por isso, a memória esbatida era boa. E a falta de esperanças não era mais do que mais uma falta no meio de tudo o que lhe faltava. A esperança caia-lhe. E, não a tendo, era isso tudo o que tinha. Aquela ponta de força não permanente no meio do nada, no meio do frio e das noites. Permanentes.
Deitou-se ali para que o notassem. Deitou-se ali para que notassem ao menos o letreiro - Estamos a recuperar o património da Baixa. No meio das noites (permanentes) só tinha de rodar a cabeça e ler. Estamos a recuperar... Era como uma força a subir-lhe pelo corpo, como se, por estar ali, pudesse recuperar.
Tinham havido dias normais - do levantar de manhã, do trabalho, do regressar. E agora aquilo - não mais normalidade naquela vida, naquela coisa a que não se atrevia a chamar vida. Naquela coisa. Sentia que não havia já nada a perder e que o património era coisa que não lhe dizia respeito. Mas, à noite, no meio dos sonhos, o letreiro parecia-lhe luminoso - o letreiro era a ponta de força no meio do nada. Já não pedia a mão (e a mão era tudo o que sonhava) nem os olhares não-indiferentes. Sabia que as cidades são como as selvas, onde a luta pela sobrevivência é o que conta no final. Sabia que a selva era a casa dele. Mas se ao menos alguém questionasse: Estamos a recuperar o património da Baixa?
Mariana Correia Pinto

sexta-feira, novembro 25, 2011

# O dia começou assim...#

Continuação do projecto "Enquanto Estamos Acordados"
#PP_LOGO_01
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terça-feira, novembro 15, 2011

# Exposição Na Casa De #

Inauguração na Fnac do Gaia Shopping no dia 19 Novembro 2011 , ás 18.30
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Exposição NA CASA DE

Que todas as portas se abram

Há pessoas assim. Capazes de se entregar, durante um ano, a um projecto que — sabem-no — lhes trará uma dor incomensurável ao corpo e à alma. Mas que sabem também que ignorar o que está para lá das fachadas de um casario aparentemente arrumado, virar a cara para o lado e fingir que nada se vê, significaria viver com uma dor infinitamente maior. Por isso, insistem. Empurram portas e saltam muros, abrem janelas e espreitam buracos nas pedras. E fazem com que todas as portas se abram, para que nenhum de nós possa dizer, eu não sabia de nada. Eu não vi. Ninguém me avisou.
Há pessoas como o Paulo Pimenta e o José António Pinto. Capazes de se comprometerem. Capazes de se entusiasmarem um ao outro na busca do que tem de ser mostrado e empenharem-se para, cada um com a sua arma — o primeiro com a máquina fotográfica, o segundo com a experiência do assistente social —, mudarem um bocadinho, por mais pequeno que seja, da miséria que testemunham. O Paulo recorda que uma amiga costuma dizer-lhe que sabe que não pode mudar o mundo, mas que todos devemos fazer o possível para mudar nem que seja uma vírgula. E ele vai atrás dessa vírgula. De muitas vírgulas.
E foi assim, por causa de pessoas como o Paulo e o José António, que durante um ano, Laurinda, Albino, Juliana ou Delfim abriram as portas das suas casas de tristeza, as casas pobres e húmidas que queriam trocar por outras, claras e seguras, mas que são ainda as suas casas. O seu tecto sobre a cabeça.
O resultado é um conjunto de imagens e histórias tocantes, que nos mostram tudo sem nunca chegarem a ser intrusivas. Apetece-nos chorar pela fragilidade que imaginamos por trás de uma camisa estendida a secar ou pelo corpo cansado estendido entre lençóis de uma cama demasiado desamparada, encostada a uma parede que se adivinha fria e escorregadia de chuva nos dias de Inverno. Queremos ter esperança, pelos pés de criança que despontam atrás de uma Hello Kitty de vestido de folhos. E quase pedimos para poder partilhar a fé de quem espalha santos e virgens por sítios improváveis.
As pessoas habituam-se a tudo. Habituam-se a chamar casa a barracas insalubres. Às gretas nas paredes. Às manchas negras da humidade. A dormirem no chão da cozinha para que os filhos tenham uma cama. Aos fios eléctricos descarnados que se cruzam com a mesa do jantar. À solidão sem palavras. Às vezes, é isso que mais dói. Quando um velho de 80 anos se habituou ao que não devia. A chamar casa ao que não devia ser uma casa. E fica uma raiva imensa, quando chegados aí, quem podia roubar-lhes esse hábito triste e dar-lhes uns dias melhores, não chega a tempo.
Felizmente, há pessoas como o Paulo e o José António. E exposições como esta, de onde ninguém sai incólume. E ainda bem que assim é.

Patrícia Carvalho
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