quarta-feira, agosto 18, 2010

sábado, agosto 14, 2010

Crise - Mudam-se os temp(l)os, multiplicam-se os ícones...

A iconografia religiosa sempre suscitou mistérios ao homem, dito de outra forma, espelhou esses mistérios, paradoxalmente sem os desvendar. Para um ‘católico não praticante’, ou melhor, para dois, o agente do texto e o das imagens, com o que essa condição possa consubstanciar, a denominação põe-se mesmo a jeito para a analogia com o desporto, traduz-se portanto em algo como não ir aos treinos e não ser convocado para os jogos, mas continuar a acreditar na equipa. A proliferação das imagens de Nossa Senhora de Fátima nos mais diversos lugares encerra o devoto desejo da resolução dos problemas, um depósito a crédito bonificado na renovação da esperança perdida. Tratar-se-á de um inequívoco negócio a venda das imagens da virgem de nome árabe? Sem dúvida. É verdade que na actualidade a Fé move a Finança, mas o que são hoje, à laia de exemplo, as imagens de Che Guevara em oferta desbaratada, senão a mais terrível das contradições: a de um mito revolucionário, cuja luta anti-capitalista o universalizou, e que agora o tornou num dos símbolos de maior facturação tendo por base um ícone?

Teriam ‘Che’, o Profeta, ou Cristo, o Revolucionário (sim, é mesmo assim, sem direito a vice-versa) de acabar estampados em t-shirts?! Teria Nossa Senhora de Fátima querido o milagre da multiplicação das imagens? E quem nos garante a nós, supostamente os mais cultos e informados, que uma imagem-objecto, um artefacto da Mãe de Jesus, em regime mais fluorescente ou mais opaco, não é o melhor dos elixires psicológicos em tempo de crise para quem nisso acredita? De ópio não percebo nada, mas gosto de um bom tónico.
João Fernando Arezes
Fotos:Paulo Pimenta
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#PP_JOANA_4 120310

quarta-feira, agosto 11, 2010

#Compreender tudo #

“É a linguagem que nos torna humanos, que nos distingue dos animais, por um lado, e das máquinas, por outro, que faz de nós seres com cosciência própria, capazes de criar obras de arte, ciência e o todo da civização.É a chave que nos permite compreender tudo”
David Lodge
A vida em surdina
#PP_LUZ_SOMBRA

sexta-feira, julho 09, 2010

# Comer Lixo #

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#PP_BATALHA_08
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Pára! Põe a máquina dos sentidos. Engrena-a. Liga-a. Upload. Ouves o chiar intermitente que passa na avenida? As mãos dele agarradas ao ferro quente da carroça rola-asfalto, já com quilos de papelão à luz do pôr-do-sol? Vês aqueles músculos invejáveis do dorso nu, queimado de poluição, raios UV, e tempo? Costuma molhar esses caixotes amassados para ganhar mais dinheiro, quando o vende para reciclar. Ficam mais pesados, nunca tanto quanto os seus olhos olheirentos, sulcados de noites em vigília de fome e medo. Quantos quilos de arroz pode pagar um quilo de papelão?
E, agora, sentes este cheiro azedo a esgoto? Vês os pés descalços que mal começaram a calejar vida já esfoliados dos passeios onde comem o que lhes dão? (Se lhes dão. Será que querem? Haverá vergonha? Qual é a intensidade da vergonha do despojamento forçado?, conta-me máquina).
Próximo nível: vejo bidões de fragmentos de nós. Quanto pesa a ostenção? Vejo eco-pontos do que resta. Gente sempre apressada, a rotação-formiga. Restos, só restos. Vês a explosão, as cores garridas, a sofreguidão, a vertigem, o ar-falta-ar, os ponteiros e rotação, a terra em transe? Arde-arde. O desvario. Há restos, tantos restos. Fragmentos de nós. O cheiro, a cidade, o ar. Os pedaços de nós. Delete: erro no sistema. Informamos que atingiu a dimensão do real. Este nível não pode apagar.
Vanessa Rodrigues

Inauguração Exposição

Abertura da exposição de fotografia e lançamento do catálogo das reportagens vencedoras do Prémio de Fotojornalismo 2010 Estação Imagem / Mora
Dia 10 Julho , pelas 16h30, no Pavilhão Municipal de Exposição de Mora

#PP_LINHA_SABOR_04
#PP_LINHA_SABOR_01

Paulo Pimenta
Ricardo Meireles
Nelson Garrido
João Carvalho Pina
Nacho Doce
Nelson D`Aires
Guillaume Pazat
Nuno André Ferreira
Gonçalo Rosa da Silva
Jorge Monteiro

domingo, junho 20, 2010

# " No dia seguinte ninguém morreu " #

OBRIGADO JOSÉ SARAMAGO

PP_SARAMAGO
“Ele adormeceu, ela não.Então ela, a morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a carta de cor violeta. Olhou em redor como se tivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, metida entre as cordas do violoncelo, ou então no próprio quarto, debaixo da almofada em que a cabeça do homem descansava. Não o fez. Saiu para a cozinha , acendeu um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o papel com o olhar, reduzi-lo a uma impalpável poeira , ela que poderia pegar-lhe fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, o fósforo comum, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte podia destruir.Não ficaram cinzas. A morte voltou para a cama , abraçou-se ao homeme , sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia , sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu.”
JOSÉ SARAMAGO
As Intermitências da Morte
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"O erro é crer que a culpa terá de ser entendida da mesma maneira por deus e pelos homens, disse um dos anjos,"
JOSÉ SARAMAGO
CAIM

sexta-feira, junho 11, 2010

# Mais braço, menos braço - 10 #

Porque insistem em falar-me da Nikita? Já disse que não tenho mais nada a dizer sobre ela. Se a vi? Vi, vejo-a muitas vezes, mas não pensem que é por isso que vos direi onde ela está. Façam de conta que morreu. É isso que ela me costuma dizer, quando lhe falo do vosso interesse. "Diz-lhes que façam de conta que morri", tal qual. Desapareceu porque quis, não foi raptada, ninguém a forçou. Cansou-se. Vocês nunca se cansam? Ela cansou-se e acho mesmo que nunca mais a verão. Ou talvez me engane, quem sabe? O que conta é que não vale a pena insistirem. Ela quer que a deixem em paz. Se algum dia mudar de ideias, ela próprio vos dirá. E, agora, vá. O meu nome é Nina. Querem saber de mim? Porque da Nikita não volto a falar.
Tatiana Irianova
A Nikita foi vista pela última vez a 13 Maio em Fátima
http://paulopimenta.blogspot.com/2009_05_01_archive.html

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quarta-feira, junho 09, 2010

# Lx 3 dias #

É a minha cidade, e não sei se é a minha cidade. Homens dobrados, embrulhados em panos, encapuçados como na Idade Média. Preto-e-branco, sim, tens toda a razão. Esta cidade é a preto-e-branco: onde foi que a perdemos?
No pátio dos antigos inquisidores, as placas pedem desculpa por há 500 anos, e aqueles que estão vivos agora sentam-se a olhar para nada e ninguém os vê. Africanos no pátio, nas escadas de pedra, nas escadas rolantes, no banco de metro com um cartaz por cima a dizer Soul. Muçulmanos de barretinho e túnica que à sexta se curvam em vãos-de-escada ali para trás, Rua de São José, Martim Moniz, Mouraria. E na colina o castelo de mentira, com as suas bandeiras mata-mouros, tão airoso. E cá em baixo o triunfo da banca, a hipoteca, a bancarrota, nós mesmos, com pedrinhas de calçada, calçadinha, e bancos de pedra design. Que alguém durma, pelo menos. Venha o sono e acordemos noutro lugar.
Ruínas e portas entaipadas, braços fechados a quem chega. Mas não nos lembramos de quem somos, não nos lembramos de quando partimos, Paris, Newark, Caracas, o mundo?
Um gato ao sol, afortunado, seja.
Alexandra Lucas Coelho jornalista do Jornal Público

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# uma fraqueza maior #

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“duas fraquezas não fazem uma fraqueza maior,fazem uma força nova , provavelmente não é assim nem nunca foi, mas há ocasiões em que conviria que o fosse,”
A CAVERNA
José Saramago