




Sei que o meu corpo foi presente no naufrágio de ti porque o vi arrojado na praia, esventrado na areia, desmembrado e inerte. Sei que lavraram chamas no barco em que afundámos juntos porque reconheci o meu coração calcinado na areia para onde as ondas o lançaram, inerte e morto, sem préstimo. Sei que estavas lá, enquanto íamos a pique para o fundo das vagas – eu a pique para o fundo de ti –, porque era teu o sapato que havia entre os despojos do barco à deriva que fomos nós, eu e tu, perdidos na tempestade: náufragos. Perdemo-nos enquanto a tempestade fazia relampejar os seus trovões, enquanto a bátega encarniçava as ondas de encontro aos nossos corpos e o sal gretava os meus lábios e os teus lábios. Podia ter-te agarrado e salvo, estreitando o teu corpo ao meu, nadando pelos dois, mas o teu corpo quis encontrar a ilha deserta que eu nunca fui. Fugiu. Não me lembro – mas não suportei o chicote das ondas e permiti que fugisses. Sei tudo e é bem simples: fui eu quem arrancou os olhos aos peixes todos (para que nada pudessem contar quando chegaram à praia).
Manuel Jorge Marmelo
Manuel Jorge Marmelo
Um comentário:
todos nós nos sentimos náufragos de vez em quando...
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