

E quando o Inverno termina e a luz do entardecer desenha sombras profundas na areia? Tu sabes: a praia está semeada de sapatos abandonados que são como corpos cansados pela sofreguidão da cópula; os areais estão ainda desertos e esses melancólicos sapatos (desirmanados, solteiros, solitários) são as testemunhas que restam dos dias em que os casais se aproximam demais da rebentação das ondas, do lume que há no meio da tempestade, e abandonam as roupas ao temporal e o calçado à turbulência das vagas. São náufragos, sim, esses sapatos, mas não foram vítimas do mar – são apenas a delicada razão pela qual trazes sempre um pé descalço quando chega o Verão.
Manuel Jorge Marmelo
Manuel Jorge Marmelo
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