quarta-feira, outubro 16, 2013

# Série: Encontro/Desencontro

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# Des/encontro #
 Cruzo a fronteira e continuo sem pertencer a lugar nenhum. O corpo extravasa para um lado e para o outro. Nesse balanço deixo cá o coração e levo comigo a lágrima (às vezes carrego a lágrima no coração). Aguardo impaciente que a fronteira mude de lugar. Que a linha se desenhe noutro espaço. Que me obrigue a caminhar sobre ela. Aguardo impaciente que a imobilidade me empurre para um abismo sem corda.
Salto. Rasgo a nuvem em voo picado à espera que o encontro não doe tanto (aço contra o céu à procura de um abraço). Mas as ondas frias deixam cristais de sal nos meus lábios lacerados. Esmurro a vaga de frente como se penetrasse uma parede de vidro, rompendo a tela de seixos bicudos e finos. Até não restarem senão mãos desenhando a minha sombra sobre a estrada.
(Des)encontro-me: a pele encosta amena sobre a terra compacta (às vezes as pedras permanecem quentes). O ouvido vibra quando o mar enrola como um coração que bate diante de uma porta entreaberta (às vezes a porta não se revela ao teu encontro). Mas só preciso do espelho, olhar-me e, no reflexo, o toque de dois encontros: olhos meus, nos teus.
 
R.R., Lisboa, 15 de Outubro de 2013
Maria David

2 comentários:

Gaspar de Jesus disse...

Encontro aqui Grande Fotografias! A primeira da série então...!!!

Susana disse...

Gostei deste Encontro/Desencontro. Há uma linha muito ténue que nos separa dos Encontros e dos Desencontros. Por vezes, podemos estar num Encontro e sentirmo-nos desencontrados e quantas vezes já estivemos num Desencontro mas tão bem encontrados connosco mesmos.