domingo, novembro 03, 2013

# Os cobradores de fraque que cortam a luz #

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A realidade dos dias insiste, por vezes, em contrariar, em alguns locais do globo, o costumeiro adágio popular que garante que pelo menos o Sol nasce para todos. Na semana passada, abateram a luz no bairro do Lagarteiro. A noite chegou como que um castigo pelo grande pecado de tentar sobreviver com quase nada.
Um punhado de técnicos eléctricos, acompanhados por um exército policial, visou o bairro do Lagarteiro, em Campanhã, Porto, num longo e dedicado raide que bem poderia ter antes como protagonistas principais dezenas de cobradores do capitalismo do fraque. De alicate em punho, a fúria do vil rigor imprimiu uma noite ainda mais escura e fria no bairro. O Lagarteiro deixou de ter Luz porque o Lagarteiro não paga contas. Só dá votos.

Bruno, que há anos luta contra a imobilidade que o infortúnio da vida lhe ofereceu, deixou de ter energia em casa para carregar a bateria da sua cadeira de rodas. A vida havia-o votado à quarentena do movimento e o diligente cobrador do fraque proibiu-o de andar outra vez. Quando não se tem dinheiro, tem-se culpa e fica-se sem nada. Sem luz, sem pernas, sem cadeiras de rodas e sem esperança apesar de as velas – que há séculos pontuavam as noites em vez dos candeeiros eléctricos – voltarem ao realismo cruel dos dias por imposição do vil metal.

“Maria”, anciã, quase ficou sem ar. Os eléctricos cobradores quase enfiaram o alicate no cabo de energia que lhe abastecia o ventilador e o equipamento que lhe fornece o oxigénio para continuar entre nós. Em poucos minutos teria morrido. A comoção e a indignação derrotaram, afinal, a factura que há anos se arrasta.
Há quem naquele bairro deva 5 mil euros de luz. É mais do que ganharam por lá alguns nos últimos cinco anos.
Ontem, levaram-lhes o trabalho, a dignidade, a comida, o sustento e a esperança. Hoje levaram-lhes a luz – aquilo que muitos pensadores da História apelidam em sentido figurado de “o conhecimento” – e amanhã talvez lhes levem a água e a roupa que prendem ao corpo.

Não cometeram qualquer crime e não foram condenados, mas cumprem uma pena pesada. Os abastados da alta finança, a mando da crise, querem que vivam com (quase) nada.

Hoje foi a luz, amanhã talvez lhes levem a liberdade. Hoje foi com eles, amanhã talvez visitem o nosso bairro.

Pedro Sales Dias

6 comentários:

manuel conde disse...

O belíssimo texto de Pedro Sales Dias e as tristemente belíssimas fotos de Paulo Pimenta complementam-se e "fazem luz" desta triste realidade e deste sinais dos tempos que passam ...

vitor monteiro disse...

sou oriundo do lagarteiro os capitalistas nao perdoam o fato de nós pobre querermos viver,porque eles querem quee nós morramos mas resistiremos,e se tivermos que morrer que seja alutar pela nossa dignidade

Pedro Carneiro disse...

Ao Paulo e Pedro a nobreza do lado que escolheram. Texto e foto trazem-nos para uma realidade que pode ser a nossa, um dia. Curioso mesmo foi a reacção (de reacçionário?)de um alto quadro (gosto do trocadilho) da EDP: só nos limitamos a cumprir a lei. Genial, não?

Catarina Brás disse...

excepcional trabalho....comovida com a dignidade que transpira o texto e com o belíssimo trabalho fotográfico.
bem hajam amigos!

A.lourenço disse...

Gosto tanto de aqui vir, a admiração que tenho pelo trabalho que fazes é enorme. Muito obrigado mesmo.
E continua deste lado. Muito belas e tocantes as palavras e as imagens. A minha solidariedade e amizade para todos os que sofrem.

A.lourenço disse...

Gosto tanto de aqui vir, a admiração que tenho pelo trabalho que fazes é enorme. Muito obrigado mesmo.
E continua deste lado. Muito belas e tocantes as palavras e as imagens. A minha solidariedade e amizade para todos os que sofrem.