quinta-feira, janeiro 24, 2008

# SÉRIE III SIGA #

Há coisas pelas quais não deveríamos ser obrigados a passar. Como um exame de condução. Como ter de sair de casa num dia de chuva. Como pôr a mão na água a ferver para sabermos o que é o ardor. Como sentir que o mundo lá fora, por detrás das grades que nos protegem, é um enorme circo, uma montanha russa sem certificado de segurança, um carrossel montado para dar lucro e entreter a massa. Como sentir que por causa do degelo não vamos comer mais mangas. E não vamos poder deixar a luz da sala ligada porque temos medo de dormir no escuro à noite.


Como ter de assistir ao lento strip das árvores no Outono, sensualmente despindo-se para nós, todos os anos, como uma puta velha e vazia, em todos os encontros. Repara: as árvores só são graciosas quando chega a Primavera, e com ela as folhas verdes, os frutos amadurecendo vagarosamente nos ramos, pesando como peitos fartos, as flores, e atrás delas, os pássaros - e também eles se foram quando a árvore se despiu e mostrou sem luz a sua face de rugas e de papos nos olhos. Como mulheres.
Como ouvir alguém dizer “siga”, mesmo que não queiramos sair do lugar. Ou melhor, como ter alguém de bastão em riste a dizer “siga” mesmo que não, não queríamos mudar de vida, agora que já estávamos acostumados a esta, agora que tínhamos este salário por mês, as dívidas certas no saldo negativo da conta do banco, agora que comprámos o carro em segunda-mão e fomos ao Brasil nas férias da Páscoa - e ainda temos as fotos (nota-se o bronzeado) a beber caipirinhas em Fortaleza em cima da televisão plasma que nos ofereceram no Natal. Não, não devíamos ser obrigados a passar por isto, a humilhação quotidiana de poder haver alguém a espreitar por cima do nosso ombro esquerdo quando tiramos o extracto na caixa Multibanco, antes de pagarmos o telefone a água o gás a contribuição autárquica o selo do carro os dois telemóveis a segurança social mínima obrigatória da nossa filha que é trabalhadora independente e está a recibos verdes e ah apesar da fila atrás de mim também aproveito e compro com o visa os bilhetes para o Rock in Rio. Não devíamos passar por isso, o confronto quase diário - depende de que lado do autocarro nos sentamos, se não formos de pé, com os vidros embaciados - dessa palavra, SIGA, escrita em letras garrafais nas paredes da faculdade, considerando que foi depois de muitas garrafadas que ela foi escrita. Sem significar nada.Quisemos fazer o mesmo com a palavra VISA© mas havia demasiados direitos inalienáveis. E não, não seria apenas uma revolta contra o nosso banco local, a agência onde trabalha o senhor Abreu, sempre tão simpático apesar de todos os meses o depósito ser cada vez mais curto. Não seria um manifesto pró-VISA para podermos multiplicar os cartões e em vez da contribuição autárquica poderíamos simplesmente enlouquecer e comprar bilhetes de primeira classe no Alfa para o Porto. Não, os direitos inalienáveis do VISA são tácitos e invisíveis, estão lá todos os dias quando passamos as fronteiras, quando não precisamos de preencher as folhinhas verdes azuis ou amarelas "ao que vem?", "trabalho ou lazer?", "em que hotel está hospedado?", "tem uma bomba na sua mala? Se respondeu sim, é de tipo estilhaço ou silencioso?" Sim, quando vamos de Gdansk a Tavira com o mesmo sorriso. Sem medo.





Mesmo assim, eles continuam a dizer SIGA, de bastão em riste, ainda que às vezes tenham um cobertor mesmo ali à mão para tapar aquela merda toda que deu à costa e que agora jaz ali na praia, já viste? Eles dizem siga, siga! (não dizem visa, visa!), de mão em riste segurando a lei escrita a lápis numa pedra oca, provavelmente mais oca do que o barco que nos trouxe aqui. O que vamos fazer com esta merda toda?, pergunta o senhor Abreu, do banco, quando vê o apresentador do telejornal das oito com a cara distorcida porque o plasma faz as pessoas mais gordas. Os que não têm direito a ter direitos, aqueles ali na praia, atrás do barrete azul rectangular do GNR que, cito, “já encaminhou o processo para as autoridades competentes procederem à expatriação dos indivíduos que, apesar de todos os esforços, ainda não foram identificados”, estão neste momento a ser entrevistados por especialistas das autoridades competentes em conseguir sacar identificação a indivíduos-não-identificados. Não existem, não vês? Não existem, o cobertor serve para provar isso mesmo: que quando espreitam pelas janelas da cela de Camilo não vêem a roda gigante das vaidades de néon e música pimba que cinicamente embeleza e engrandece toda a praça; que quando deram à praia não viram os bandos de pássaros a partir porque o Inverno está à porta (e se os pássaros querem ir para sul, por que raio estes gajos querem vir para norte?, pergunta indignado o GNR à jornalista que sensivelmente edita as imagens que ficaram por ver, na mesa de montagem da televisão pública); e que quando, dentro da carrinha da GNR, vão em direcção aos escritórios das autoridades competentes, não vêem SIGA escrito na parede do cemitério; e que quando o sol se põe todas noites eles não o vêem porque há muito tempo que só há escuro e frio debaixo dos cobertores. Se não vêem é porque não querem e pior cego é aquele que não quer ver, como, por exemplo, o senhor Abreu, que só quer ver a Catarina Furtado esticada pelos não-sei-quantos centímetros do LCD.E agora, acham que devíamos ter de passar por isto? Não teremos direitos a dizer “sigo” quando queremos, em vez de ouvirmos alguém a usar a forma imperativa que já ninguém conjuga na escola? Não teremos o direito a dizer “visa” quando queremos voar para norte, como as aves? Ainda húmidos e sujos sob os cobertores, não teremos direito a perguntar quem são esses cabrões que nos cortam as asas antes











mesmo de levantarmos voo? Não teremos direito a ver o sol a pôr-se até ao fim, sem paragens nem intromissões indesejáveis, sem o telefone tocar para alguém nos avisar do outro lado da linha que uma vida acabou de ser interrompida, repentina e inesperadamente; que um homem acabou de arrumar a sua trouxa e partiu para norte atravessando o deserto a pé; que uma mulher acabou de ser abandonada por mais um homem cobarde; que a mão pesada dele assentou abruptamente na cara da rapariga; que (não sei se sabes) mas alguém foi ao médico e foi-lhe diagnosticado uma doença incurável; que mais um homem moribundo deu à costa (ah, não sabia) e está deitado ali na praia ao lado daquele outro que morreu de sede, sem bilhete de identidade?


















Por isso vos digo que há coisas pelas quais não devíamos ser obrigados a passar. Como ter saudades. Como viver em muitos lugares e não saber o que é casa. Ou num só lugar, a vida inteira, e continuar sem saber se casa é coisa. E se tem cheiro e cor, nome, lugar ou identidade. Como ter de partir sem saber bem para onde. Como chegar e não saber onde se está. Como imaginar a vida inteira um lugar que afinal não existe. Como sentir falta. Como explicar? Como termos de explicar o que é sentir falta quando não há palavras, nem metros de película, nem rolos de máquina fotográfica, oh, nem bites digitalizados dos sentimentos. Quantos megabites de falta? Há coisas pelas quais não devíamos ser obrigados a passar. Como sermos rotulados, assimilados, exonerados, refugiados, renovados, cristãos-novos, não-identificados, terroristas, absolvidos, exilados, abandonados, Zé-ninguém, emigrantes, imigrados, aterrorizados, palestinos, mortos-vivos, brancos, pretos, moribundos, retornados. Como pedirem-nos para explicarmos o que é isso de passar a vida inteira a tentar compreender a incomensurabilidade do exílio, da partida, da perda. Sim, como a perda.

Maria David, Liverpool, 22 Janeiro

2 comentários:

catarina disse...

brilhante!

Miss Keatch disse...

Como sempre... Uau!!!